A colheita da segunda safra de milho está ganhando ritmo por todo o Brasil e, como muitos já acompanham no campo, os sinais apontam para uma produção menor em comparação ao ciclo passado. No entanto, isso não significa que o mercado vai seguir uma direção simples ou linear para os preços nas próximas semanas. O cenário real do mercado de milho é um pouco mais complexo.

Atualmente, estamos diante de um verdadeiro “cabo de guerra” que envolve forças regionais e globais. Para o produtor rural, esse momento exige atenção redobrada na estratégia de comercialização para defender as margens do negócio.

O raio-x da colheita de milho pelo Brasil

Vamos direto ao ponto principal: o comportamento das lavouras. O mês de maio deixou claro que a safra de milho enfrenta alguns problemas pontuais de produtividade. Minas Gerais e Goiás, por exemplo, sofreram bastante com a falta de chuvas no momento crucial do desenvolvimento. Outras regiões, como o sudeste de Mato Grosso e algumas praças do Paraná, também registraram perdas.

A certeza que temos hoje é que não repetiremos o recorde absoluto do ano anterior. Mesmo assim, está longe de ser uma safra ruim. As primeiras áreas colhidas mostram números expressivos, especialmente em relação ao peso dos grãos, e a produção do Mato Grosso deve vir bastante robusta.

Em termos de volume total, a estimativa atual aponta que a segunda safra nacional deve ficar acima de 112 milhões de toneladas. Isso representa um recuo de pelo menos 10 a 12 milhões de toneladas em relação ao ciclo passado.

Se a safra é menor, por que os preços do milho não dispararam?

Essa é a principal dúvida de muitos produtores. Se a oferta caiu, a tendência natural não seria uma disparada nos preços internos? Existem dois motivos principais que funcionam como um teto para as cotações neste momento.

1. O fator interno: estoques e o motor do etanol

O primeiro motivo está dentro de casa. O Brasil ainda carrega estoques de passagem elevados da colheita anterior. Essa disponibilidade retira a pressão imediata de compra por parte das indústrias em diversas praças.

Por outro lado, a nossa demanda interna continua muito forte e aquecida. O grande motor desse consumo é o setor de etanol de milho, que sozinho deve absorver cerca de 30 milhões de toneladas. Esse consumo doméstico robusto oferece um suporte vital para os preços regionalmente. No total, o consumo interno brasileiro deve superar novamente a marca de 100 milhões de toneladas, impulsionado tanto pelo etanol quanto pelo mercado de proteínas animais (aves e suínos).

2. O fator externo: a concorrência na exportação

O segundo motivo que limita as altas vem da porteira para fora. O mercado internacional está extremamente competitivo e, no momento, o milho brasileiro não é o mais barato do mundo.

A Argentina está consolidando uma safra recorde, estimada na casa das 63 milhões de toneladas, e vai entrar com muita força no mercado de exportação nos próximos meses. Além disso, os Estados Unidos caminham para a finalização do plantio da sua nova safra com um programa de embarques acelerado.

Com essa forte concorrência externa, as exportações brasileiras de milho devem enfrentar um cenário mais desafiador, com volumes estimados abaixo das 40 milhões de toneladas.

O que monitorar em junho para não voar às cegas?

Para o produtor que precisa tomar decisões de venda no curto prazo, o mês de junho traz três pontos cruciais que vão ditar o ritmo do mercado:

  • O rendimento real no campo: a evolução dos dados que saem direto das colheitadeiras brasileiras ao longo das próximas semanas.
  • O ritmo da Argentina: a velocidade dos embarques e o nível de agressividade do milho argentino no mercado internacional.
  • O relatório do USDA: o documento que será divulgado no final de junho trará o tamanho real da área plantada nos Estados Unidos, definindo a tendência de preços na Bolsa de Chicago.

Olho no presente e planejamento para o futuro

Olhando para a frente, o cenário global desenha um mercado um pouco mais ajustado, com as projeções em Chicago orbitando a casa dos 5 dólares por bushel.

Mas a grande verdade para o agricultor brasileiro é que, antes de focar na safra futura de milho, o desafio imediato é encerrar a colheita atual com eficiência. Além disso, há todo um ciclo de soja para planejar, plantar e colher pela frente.

A prioridade absoluta do momento deve ser a gestão financeira: monitorar os custos regionais e aproveitar as janelas de oportunidade para defender as margens do milho que está entrando no armazém.